DESCAMANDO

terça-feira, dezembro 26, 2006

Meu pai e eu

Era no chiqueirinho do fusca dele que eu, aos 3 anos de idade, me escondia pra não descer do carro e ir pra escola. Era ele que estava dirigindo a Brasília enquanto eu lia todas as placas na rua na época que eu estava começando a aprender a ler. Quando eu tinha uns 4 ou cinco anos ele estava de férias e algumas vezes íamos apenas nós dois a praia no meio da semana. Ele guardava minhas roupinhas, pazinhas e brinquedos, e na volta me arrumava direitinho tirando a areia e arrumando meu cabelo antes de entrar no carro.
Foi meu pai que estudou português comigo para a prova de seleção de um disputado colégio. Deve ter ficado feliz da filha de 7 anos ter passado em primeiro lugar(pois é, já fui boa aluna um dia, hehehe).
Ele nunca pôde me dar as duas bicicletas que ganhei, mas por sorte tenho duas irmãs que eram adultas e podiam me dar os presentes. Mas foi ele que me ajudou a arrumar as rodinhas na primeira bicicleta. E também, aos meus 9 anos, num dia de natal, enquanto a minha irmã estava de plantão no hospital, foi comigo ao local que ela pediu pra que fossemos pegar meu presente. Ela deixou com uma amiga e havia me avisado que era uma pequena caixinha, passei 3 vezes pela bicicleta vermelha e quase fiquei sem pernas quando ele finalmente disse que era aquele meu presente.
Na adolescência era dele o olhar que mais me fazia sentir vergonha por estar repetindo o ano. E o engraçado é que tanto ele quanto minha mãe continuavam apostando em mim, mesmo sob críticas de todos e novas frustrações ao perceberem que mesmo acreditando em mim eu voltava ao mesmo erro.
Foi através do amor deles que eu consegui sobreviver a mim mesma. E descobrir a Patrícia que ele sempre soube que existia. A persistência deles me fez chegar até aqui.
Foi ao lado da cama dele no hospital que fiquei todos os dias enquanto estive em Fortaleza relembrando essas pequenas coisas. Descobri que a maior parte dos momentos felizes que vivi com meu pai foi nos fins de tarde, sentada ao lado dele enquanto ele dirigia pra casa depois da minha aula e de mais um dia de trabalho como professor que foi por mais de 50 anos. Era quando comíamos o pão quentinho que pegávamos na padaria, e eu cantava a música que tocava no rádio.
Esse ano, já bem doente, a maior alegria dele foi saber que eu finalmente havia comprado o meu lugar(o maior medo dele era sair daqui e não ver isso). Não conseguimos nos falar ao telefone mais, mas ele soube de tudo e se sentiu realizado através desse pequeno sonho brasileiro.
Saudades pai. Obrigada por tudo. Obrigada pelo amor, pela torcida e por sempre ter acreditado em mim.

Sua filha que sempre vai te amar.

Patrícia Pessoa

FRANCISCO PESSOA PEREIRA
04 DE JULHO DE 1916 - 15 DE JUNHO DE 2006